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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Poema em entrelinhas tortas

Saudade do tempo que não volta mais
Eu tenho toda vez que algo de meu tempo
inunda-me de um sentimento
tão infame, reles e vil como ninguém é,
ou como ninguém mais pode ser.

Vejo coisas, não queria!
Ando torto, torpe e atormentado
por todos que me rodeiam cheios de tudo que não tenho,
vazios de tudo que sou.
Vejo veloz pela janela algo que me empenha a ser mais.
Ando por ai, levado pelo ditado dessa tacocracia insaciável
Ando assim meio de lado, grotesco, sinistro, escorraçado
Ando, não corro, esse é meu mal.
Nos dias de hoje, ter pressa aperfeiçoa e é normal.
Por mais eu que tente correr, ando...
Como o gerúndio que nada termina
Mas que se faz perfeito no contínuo
Continu-ando...
Ando mutilado por toda multiplicidade deste tempo
Que ao invés de conceder-me liberdade e contento,
pesa-me aos ombros, entortando-me ainda mais.
Mais do que minha consciência inteira, pesa-me o peso do possível.
Este que me arranca todo o alívio da conquista
impelindo-me com uma rapidez inevitável
para o próximo grande feito da lista.

Vencer não sacia por mais que um segundo
O pódio se desfaz em ópio
Logo és não mais que qualquer um no mundo
Apenas cinzas de horas nobres do passado
que tu tens nas mãos em pleno nado.

Tudo se esvai,
parte de mãos dadas com o tempo,
romântico como toda perda ou partida.
Aparência, agilidade, habilidade, grandes feitos,
nobreza, beleza, formas, armas, poder, dinheiro,
livros,
versos,
poetas, homens, mulheres e qualquer coisa mais,
tudo se esvai.
Tudo e todos deitam-se ao solo.
E assim o fazem aos muitos (com há pouco no Haiti)
ou aos poucos, cada um a sua vez
Naturalmente como contar uma estória e começar com:
“Era uma vez...”
De maneira absoluta e simples,
deitamos todos ao chão,
como quem se deita para ver estrelas
(E as vê com olhos sãos)
Como quem se deita e sente as estrelas sem pensar nelas
Exatamente como estrelas que elas são.

Leandro Costa

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