Saudade do tempo que não volta mais
Eu tenho toda vez que algo de meu tempo
inunda-me de um sentimento
tão infame, reles e vil como ninguém é,
ou como ninguém mais pode ser.
Vejo coisas, não queria!
Ando torto, torpe e atormentado
por todos que me rodeiam cheios de tudo que não tenho,
vazios de tudo que sou.
Vejo veloz pela janela algo que me empenha a ser mais.
Ando por ai, levado pelo ditado dessa tacocracia insaciável
Ando assim meio de lado, grotesco, sinistro, escorraçado
Ando, não corro, esse é meu mal.
Nos dias de hoje, ter pressa aperfeiçoa e é normal.
Por mais eu que tente correr, ando...
Como o gerúndio que nada termina
Mas que se faz perfeito no contínuo
Continu-ando...
Ando mutilado por toda multiplicidade deste tempo
Que ao invés de conceder-me liberdade e contento,
pesa-me aos ombros, entortando-me ainda mais.
Mais do que minha consciência inteira, pesa-me o peso do possível.
Este que me arranca todo o alívio da conquista
impelindo-me com uma rapidez inevitável
para o próximo grande feito da lista.
Vencer não sacia por mais que um segundo
O pódio se desfaz em ópio
Logo és não mais que qualquer um no mundo
Apenas cinzas de horas nobres do passado
que tu tens nas mãos em pleno nado.
Tudo se esvai,
parte de mãos dadas com o tempo,
romântico como toda perda ou partida.
Aparência, agilidade, habilidade, grandes feitos,
nobreza, beleza, formas, armas, poder, dinheiro,
livros,
versos,
poetas, homens, mulheres e qualquer coisa mais,
tudo se esvai.
Tudo e todos deitam-se ao solo.
E assim o fazem aos muitos (com há pouco no Haiti)
ou aos poucos, cada um a sua vez
Naturalmente como contar uma estória e começar com:
“Era uma vez...”
De maneira absoluta e simples,
deitamos todos ao chão,
como quem se deita para ver estrelas
(E as vê com olhos sãos)
Como quem se deita e sente as estrelas sem pensar nelas
Exatamente como estrelas que elas são.
Leandro Costa
Ironia é a primavera árabe... Ironia, mesmo, são as flores sem amor, cheias de conceito e ocas de sentido! Mas, quem se importa?
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Ensaio sobre o sofrimento e o tédio
Um pensador disse em certa ocasião que a existência humana oscila entre o sofrimento e o tédio com intervalos que chamamos de momentos felizes. Muito sábias tais palavras. Trata-se de uma visão que descreve sinteticamente o que se passa com o homem durante a vida com um olhar um tanto quanto realista, ou mesmo pessimista - eu admito.
Sofrimento e tédio, definitivamente, não são mero fruto da ira de um (D)deus embriagado ou mal humorado, mas talvez sejam os responsáveis por estarmos por aqui, já a essa altura dos acontecimentos. O tempo passou, nós surgimos pouco a pouco na Terra e cá estamos depois que tanto tenha se passado. Alguns chamam isso de sucesso evolutivo, outros acreditam que tudo surgiu de uma obra de um ser superior e há ainda os que se permitem permanecer na dúvida. O fato é que, de uma forma ou de outra, ainda habitamos a Terra e o sofrimento e o tédio são dois dos responsáveis por isso. Basta que olhemos para nossas próprias vidas e para o que nos cerca para chegarmos a algumas fáceis conclusões: tudo aquilo que traz conforto não motiva mudanças, em time que ta ganhando não se mexe e por ai vai. Por um outro lado, sofrimento motiva atitudes de procura e consequentemente encontros, mudanças de rota, de direção. Sofrer não é confortável, não trás comodidade ou alívio, ao contrário, trás sensações extremamente desagradáveis e por vezes até mesmo insuportáveis com as quais não conseguimos permanecer muito tempo sem que algo seja feito, sem que uma atitude seja tomada.
O tédio, apesar de bem diferente do sofrimento, também serve como fomentador de descobertas, mas de uma maneira um pouco diferente. Ele algumas vezes anda de mãos dadas com o ócio, mas em muitas outras pode acompanhar as mais árduas formas de trabalho ou qualquer outra ocupação, entretanto, de uma forma ou de outra, ele é sempre revelador. Revela a necessidade de desenvolvermos novos objetivos, novas metas, a necessidade de superação, de aventuras e muitas outras. O tédio muda rumos, sugere uma contramão, a desconstrução como forma de construção. Ele mostra como a “mesmice” tem que ser combatida ferrenhamente. A história (assim como a história da humanidade) é sempre a mesma: o que antes lhe aprazia, agora lhe causa repulsa; o que trouxe bastante conforto no passado, hoje incomoda; o que satisfazia, hoje já não satisfaz mais; o que combinava, hoje destoa.
Sofrimento e tédio complementam-se e dessa forma possibilitam que sejamos muito do que realmente somos. Há aquilo que só alcançamos se nos mobilizarmos em diferentes situações, em momentos de farpas e espinhos, mas também momentos de água e vinho; digo, a mesma água e o mesmo vinho já há muito ou mesmo algum tempo. Farpas e espinhos exigem força, superação da dor e da angústia; exigem um ser humano mais realista, racional, persistente, corajoso. No entanto, superar a mesma água e o mesmo vinho não exige força nem é um ato de coragem (na maioria das vezes), pois a água e o vinho não estão causando exatamente um mal, eles continuam matando a sede. Veja que não se trata de algo tão simples que possa ser resolvido transformando-se água em vinho caso se tenha somente a água ou trocando o vinho por água caso se tenha somente o vinho. Reverter o repetido exige criatividade, exige uma mente aberta; aberta para o novo, para o que é inovador, contraventor, surpreendente, diferente, e que diferente seja entendido como apenas diferente, não necessariamente melhor ou pior do que antes.
Criatividade e força são duas de nossas características mais vantajosas e belas, mas que nascem de algo que nos incomoda, que nos enche ou mesmo que nos esvazia; que nos faz sentir demais ou sentir de menos. São características advindas do sofrimento e do tédio (pelo menos em parte), duas sensações que se pudéssemos escolher não escolheríamos, mas que de alguma forma nos escolheram e fizeram de nós o que somos hoje: virtudes e defeitos, esperança, ódio, indiferença e amor.
Sofrimento e tédio, definitivamente, não são mero fruto da ira de um (D)deus embriagado ou mal humorado, mas talvez sejam os responsáveis por estarmos por aqui, já a essa altura dos acontecimentos. O tempo passou, nós surgimos pouco a pouco na Terra e cá estamos depois que tanto tenha se passado. Alguns chamam isso de sucesso evolutivo, outros acreditam que tudo surgiu de uma obra de um ser superior e há ainda os que se permitem permanecer na dúvida. O fato é que, de uma forma ou de outra, ainda habitamos a Terra e o sofrimento e o tédio são dois dos responsáveis por isso. Basta que olhemos para nossas próprias vidas e para o que nos cerca para chegarmos a algumas fáceis conclusões: tudo aquilo que traz conforto não motiva mudanças, em time que ta ganhando não se mexe e por ai vai. Por um outro lado, sofrimento motiva atitudes de procura e consequentemente encontros, mudanças de rota, de direção. Sofrer não é confortável, não trás comodidade ou alívio, ao contrário, trás sensações extremamente desagradáveis e por vezes até mesmo insuportáveis com as quais não conseguimos permanecer muito tempo sem que algo seja feito, sem que uma atitude seja tomada.
O tédio, apesar de bem diferente do sofrimento, também serve como fomentador de descobertas, mas de uma maneira um pouco diferente. Ele algumas vezes anda de mãos dadas com o ócio, mas em muitas outras pode acompanhar as mais árduas formas de trabalho ou qualquer outra ocupação, entretanto, de uma forma ou de outra, ele é sempre revelador. Revela a necessidade de desenvolvermos novos objetivos, novas metas, a necessidade de superação, de aventuras e muitas outras. O tédio muda rumos, sugere uma contramão, a desconstrução como forma de construção. Ele mostra como a “mesmice” tem que ser combatida ferrenhamente. A história (assim como a história da humanidade) é sempre a mesma: o que antes lhe aprazia, agora lhe causa repulsa; o que trouxe bastante conforto no passado, hoje incomoda; o que satisfazia, hoje já não satisfaz mais; o que combinava, hoje destoa.
Sofrimento e tédio complementam-se e dessa forma possibilitam que sejamos muito do que realmente somos. Há aquilo que só alcançamos se nos mobilizarmos em diferentes situações, em momentos de farpas e espinhos, mas também momentos de água e vinho; digo, a mesma água e o mesmo vinho já há muito ou mesmo algum tempo. Farpas e espinhos exigem força, superação da dor e da angústia; exigem um ser humano mais realista, racional, persistente, corajoso. No entanto, superar a mesma água e o mesmo vinho não exige força nem é um ato de coragem (na maioria das vezes), pois a água e o vinho não estão causando exatamente um mal, eles continuam matando a sede. Veja que não se trata de algo tão simples que possa ser resolvido transformando-se água em vinho caso se tenha somente a água ou trocando o vinho por água caso se tenha somente o vinho. Reverter o repetido exige criatividade, exige uma mente aberta; aberta para o novo, para o que é inovador, contraventor, surpreendente, diferente, e que diferente seja entendido como apenas diferente, não necessariamente melhor ou pior do que antes.
Criatividade e força são duas de nossas características mais vantajosas e belas, mas que nascem de algo que nos incomoda, que nos enche ou mesmo que nos esvazia; que nos faz sentir demais ou sentir de menos. São características advindas do sofrimento e do tédio (pelo menos em parte), duas sensações que se pudéssemos escolher não escolheríamos, mas que de alguma forma nos escolheram e fizeram de nós o que somos hoje: virtudes e defeitos, esperança, ódio, indiferença e amor.
Leandro Costa
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O fim do tempo
O tempo é sábio
e nos da tudo o que temos,
e nos da tudo o que temos,
nos da tudo que somos.
Ele trabalha o que precisa ser trabalhado,
envelhece o que precisa ser envelhecido,
traz lembranças de nosso esquecimento
e leva lembranças ao esquecimento.
Ele leva um amor ao vento
(esse seu parceiro inseparável)
e também pode fazê-lo brotar.
O tempo nos trás pessoas inesquecíveis
e depois mais pessoas inesquecíveis
depois que esquecemos a anterior.
Mosaico de sentimentos
do ódio ao amor
passando pela indiferença.
Tempo maldito que custa a passar.
Tempo bendito eterno em um instante.
Instante do abraço antes do apocalipse.
Apocalipse que inicia uma nova era.
Como o sol novamente após um eclipse.
mas mesmo que um meio sempre encontre a vida
ou que a vida sempre encontre um meio
sempre chega a hora do mergulho
então o abraço se desfaz
o beijo já não toca
a voz cala
a dor
.
É quando desejamos não desejar
(é o que penso, apesar de nunca ter chegado lá)
Tudo já se foi
só nos resta acreditar
na ilusão de estarmos indo atrás,
atrás dos que já foram, do que já foi.
Acreditar que foi bom o que fizemos
(e bom não só para nós mesmos)
resta-nos acreditar que é natural
natural o que nosso instinto
sempre nos ensinou a ter medo.
E de fato o fim é mesmo sempre natural
por mais artificial que seja a maneira
por mais que busquemos por explicações
ou que queiramos não aceitar
negar pode ser uma rima
talvez uma saída
mas não uma solução.
Esta não existe
nem sub-existe,
apenas nos incomoda,
insiste e persiste.
Quase nada nos resta:
fantasia para uns
morfina para outros.
Como durante a vida
cada um procura sua droga
nem todos encontram
não há corrimãos
não há bengalas
não há cadeiras
não há clareiras
cada uma por si
como viemos ao mundo
ela como ela é
O tempo já não importa,
apesar ser o maior dos problemas.
O maior dos problemas já não importa.
Somente o sentimento
e todo ele em um só momento
mas não há tempo para tudo
só há tempo para pouco
muito, muito pouco
um resquício
intenso
inteiro
mas não eterno.
O coração já não mais
O ar já não entra
O que tudo suporta
já não mais aguenta,
o sopro se esvai ao vento
e apesar de boas horas vividas
Advém o fim, sempre intrépido e sangrento
Ele trabalha o que precisa ser trabalhado,
envelhece o que precisa ser envelhecido,
traz lembranças de nosso esquecimento
e leva lembranças ao esquecimento.
Ele leva um amor ao vento
(esse seu parceiro inseparável)
e também pode fazê-lo brotar.
O tempo nos trás pessoas inesquecíveis
e depois mais pessoas inesquecíveis
depois que esquecemos a anterior.
Mosaico de sentimentos
do ódio ao amor
passando pela indiferença.
Tempo maldito que custa a passar.
Tempo bendito eterno em um instante.
Instante do abraço antes do apocalipse.
Apocalipse que inicia uma nova era.
Como o sol novamente após um eclipse.
mas mesmo que um meio sempre encontre a vida
ou que a vida sempre encontre um meio
sempre chega a hora do mergulho
então o abraço se desfaz
o beijo já não toca
a voz cala
a dor
.
É quando desejamos não desejar
(é o que penso, apesar de nunca ter chegado lá)
Tudo já se foi
só nos resta acreditar
na ilusão de estarmos indo atrás,
atrás dos que já foram, do que já foi.
Acreditar que foi bom o que fizemos
(e bom não só para nós mesmos)
resta-nos acreditar que é natural
natural o que nosso instinto
sempre nos ensinou a ter medo.
E de fato o fim é mesmo sempre natural
por mais artificial que seja a maneira
por mais que busquemos por explicações
ou que queiramos não aceitar
negar pode ser uma rima
talvez uma saída
mas não uma solução.
Esta não existe
nem sub-existe,
apenas nos incomoda,
insiste e persiste.
Quase nada nos resta:
fantasia para uns
morfina para outros.
Como durante a vida
cada um procura sua droga
nem todos encontram
não há corrimãos
não há bengalas
não há cadeiras
não há clareiras
cada uma por si
como viemos ao mundo
ela como ela é
O tempo já não importa,
apesar ser o maior dos problemas.
O maior dos problemas já não importa.
Somente o sentimento
e todo ele em um só momento
mas não há tempo para tudo
só há tempo para pouco
muito, muito pouco
um resquício
intenso
inteiro
mas não eterno.
O coração já não mais
O ar já não entra
O que tudo suporta
já não mais aguenta,
o sopro se esvai ao vento
e apesar de boas horas vividas
Advém o fim, sempre intrépido e sangrento
Leandro Costa
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Prece do Viajante do Tempo
Ó tempo que paira coerente por entre vales de sonho
Que esvai sem querer pelas frestas esguias dos dedos da morte
Que corre solto e leve por entre os cabelos e por sobre a pele da morena desconhecida a cavalgar pelo tempo
Ó tempo que levita através de si travestido de novo por entre segredos soltos
Tempo sem pressa, de apresso apertado dos corações disparados!
Ó tempo,
Condição da espera,
Que carrega sobre si o peso de suas próprias sombras arrastadas na superfície rude de aquarela de singularidade múltipla
Que traz de longe vida como presente de Deus em sopros suaves de ondas voluptuosas e que a leva pra longe da matéria imunda com a delicadeza elegante de uma brisa primaveril
Ó tempo, que és tu mesmo através de ti
Vai-te
Vai-te sem partir
Vai-te tempo, de memórias intactas
Vai-te tempo, de memórias intactas
E vagueia sóbrio no teu seio!
Vagueia e mostra os mistérios dos caminhos no seu tempo
Cumpre teu propósito
Ó tempo
Tu que és justo
Instrumento do Divino
Que és sem pressa
De apresso apertado no meu peito!
José de Lima Cardozo Filho
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