Por suas ações? Ou pelo que este é em seu íntimo? Poderia, eu, julgar um homem? Talvez. Mas que pesos devo usar para tal? Que pesos são justos para fazê-lo? Para que lado escolherei, arbitrariamente, fazer pender a balança? E eis, que eu, particularmente resolvi usar meus pesos. Os pesos da dúvida. Pois que sei eu sobre pesos? Serão iguais? Diferentes? Que sei eu sobre pesos e medidas para julgar um homem?
Posso julgar um homem por suas ações, se há tantos pensamentos desconhecidos,tantas razões escondidas? Tenho esse lúgubre e sinistro direito de julgar homem algum? Não sei! Pois a mim, pesaria a espada da justiça. E a minha justiça é justiça de desconhecido. Não se trata de ser cauteloso ou covarde, pois tais atributos me são muito nobres. Trata-se de escolha. A escolha pelo desconhecido, pelo vazio sem respostas. Estou ali, nos ares nebulosos das interrogações obscuras! Bem ali a ser julgado pelos reflexos de labirintos de espelhos.
Escolhi não pensar em razões, motivos. Escolhi o alheio aos meus julgamentos, pois estes últimos me são muito caros; preço que não posso pagar. Mas aqui, que haja lancetes de embriaguez lúcida. Que haja um julgamento. E que o faça quem tenha esse poder. Que o faça quem tenha os pesos e medidas sob custódia secreta. E assentenças espúrias? Danem-se as minhas dadas, a nós de nada valem. Contra mim, daqueles que como eu desconhecem pesos e medidas, valem nada!
"O que define um homem? Seus atos ou seus pensamentos? Ora, a verdade nunca é clara ante olhares relativos, embora absoluta. O que faz de um homem um homem? O telencéfalo superdesenvolvido ou seu polegar opositor? Talvez, o que faça de um homem um homem sejam seus pensamentos, suas ideias; seu telencéfalo superdesenvolvido. Pois ainda que lhe cortassem o polegar opositor, ainda que lhe tomassem o direito de agir, ainda assim, lhe sobrariam os pensamentos e as ideias. Estou certo? Sei não! Prefiro não pensar em estar certo. Penso por compulsão, e penso não querer pensar em quase nada. Por isso, "há metafísica bastante em não pensar em nada¹!"."
¹Fernando Pessoa: O Guardador de Rebanhos.
José de Lima Cardozo Filho

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