Quem sabe quando podemos ser contaminados pelo bichinho da utopia? Como explicar a sensação de fracasso e frustração de viver num mundo sem limites e ao mesmo tempo limitado a ponto de impedir movimentos que se faça no sentido de alcançar a realidade de um sonho? Como explicar o sabor amargo da excentricidade? Como dizer a si mesmo que o tempo em que estivera na batalha da busca pela felicidade não passara de um sonho, e que neste, fostes derrotado pelas forças do "acaso"? Por que motivo acreditar no acaso do futuro, quando, na verdade, não se acredita nem na própria constatação da doçura do presente? E o presente? Quem nos deu esse presente nostálgico, que nos faz sentir saudades do que nunca tivemos?
Tantas perguntas me remetem a acreditar que todo tempo estive sedado, e que agora acordado, ainda meio anestesiado, começo a ver a dura realidade; implacável se faz sentida e arranca a inocência de sonhador. É difícil acreditar que durante um momento da eternidade estive sob domínio da utopia. Em saber que tudo poderia ter sido real. Em pensar que no raio de um instante tudo esteve tão perto e que por um segundo pude experimentar o calor indistinto de ser feliz. Ela estava ali; tão próximo quanto poderia estar. Era a personificação da beleza e perfeição com que sonhara há tempos. Bastava um olhar em sua direção para saber que se eu a tivesse para mim, nada mais importaria, pois nela, havia um brilho, um sabor, um cheiro, um som. Um brilho que fazia vibrar, um sabor que fazia derreter, um cheiro que fazia entorpecer, um som que fazia em devaneios no próprio sonho.
O mundo dos sonhos são como labirintos, quando dentro dele nos sentimos perdidos na doce ilusão de ser quem não somos, de ter quem ou o que não temos, de ver o que não vemos, de viver o que não vivemos. Tal qual os labirintos, o mundo dos sonhos nos faz perder a noção da realidade, embaraçando nossos sentidos e nos entorpecendo de forma elouquecedoura.
Não raros são os dias em que no sentimos alquimistas ridículos, que acreditam em coisas ‘impossíveis", e não obstante, arrastamos um monte de pessoas fazendo-as acreditar também na a promessa de algo tão incerto quanto à megalomania dos nossos sonhos. Importante é sonhar. Mas, porque sonhar? Porque sonhar quando na verdade o que conta mesmo afinal de contas, é a beleza gélida da realidade? Talvez, porque somos dependentes de algo que nos faça acreditar no que podemos realizar com a força da vontade e da fé, mesmo que no decorrer dos anos nunca consigamos provar isso.
Ver a realidade num plano diferente dos nossos sonhos, e se conscientizar disso, nos induz a experimentar o gosto adstringente de uma derrota sem luta, uma dor aguda sem analgésico que a faça cessar, uma fraqueza na carne que nos faz tremer de medo, um medo estranho do depois. O silêncio em nossa alma grita estridentemente, buscando por respostas que o tempo insiste em nos dar de forma parcelada, o que nos leva quase à loucura de tanta ansiedade. Difícil mesmo, é quando se sofre calado e sozinho num canto, desnorteado, e apesar da enorme vontade que se sente de gritar como um louco ou mesmo chorar copiosamente, o grito fica contido no peito e as lágrimas insistem em não cair. Os dias vem e vão, mas no deserto da desilusão a escuridão da noite se faz presente, como um presente dos deuses do mundo inferior. Se se sente sede ou fome, não há líquido ou comida que nos satisfaça, pois a única coisa capaz saciar nossas necessidades não passa de um sonho, uma miragem, uma ilusão. Pura obra da ironia do senhor destino, que sabe-se lá o porquê, resolve satirizar nossas vidas com brincadeiras de mau gosto. Não é complicado entender tudo isso, complicado mesmo é aceitar. Aceitar como vacas de presépio. Aceitar as circunstâncias, por mais desagradáveis que sejam, confiantes em meio a vendavais, crentes de que acima das nuvens escuras há um sol que brilha.
"Ocê talvez não conhece o veneno que as cobras têm,
Pois elas quando dá o bote balança o guizo também,
A cascavel, traiçoeira quando ela quer se vingar,
Balança o guizo contente na hora dela pegar;
A urutú é perigosa, de ruim não se manifesta
É cobra tão venenosa que traz uma cruz na testa
Jaracuçu Deus nos livre quando ele chega a picar
Deixa o sinal de seus dentes e a cicatriz no lugar;
Mas eu lhe digo a verdade, por cobra eu já fui picado;
Por cascavel, caninana e urutú este malvado;
De todas já me livrei desse veneno amargura
Existe um contra-veneno por isso tudo se cura;
Mas tem uma cobra do mato, cabocla lá do sertão
Que traz veneno nos olhos e ataca no coração
Dessa uma vez fui picado, um dia só por maldade
Que ainda trago o veneno, na cicatriz da saudade."
(Tião Carreiro & Pardinho, Cobra Venenosa)
José de Lima Cardozo Filho